Trânsito
Angústia pública
Angústia pública é este sentimento difuso de mal-estar que se
origina dos acontecimentos públicos traumáticos, chamados estressores, tais
como os acidentes de trânsito com vítima, desastres, situações-limite de
toda violência urbana e também de todas essas situações com a política e com
a inoperância das instituições.
A capacidade de cada um para suportar eventos traumáticos é,
aparentemente, uma característica dita "individual". Mas o quanto a
conformação desta capacidade está condicionada pelas representações sociais,
que apontam os parâmetros de aceitação ou não de comportamentos diante das
situações traumáticas?
O trauma é uma experiência que explode a capacidade de suportar
um revés, nos traz a perda de sentido, desorganização corporal e paralisação
da consciência temporal. Além disso, pode deixar marcas que influenciam a
criatividade e a motivação para a vida. De fato, trata-se de um
acontecimento muito difícil na vida de uma pessoa.
A angústia é um estado emocional e físico que envolve conflitos
com forte discrepância entre processos interiores e as possibilidades de
satisfazê-los. Ou seja, é uma emoção que tem como principal característica o
fato de ser desagradável. Acontecimentos na esfera pública, e que provocam
este sentimento de desolação, de dor e sofrimento, talvez nos tornem mais
impotentes do que aquela angústia de ordem propriamente pessoal. A angústia
pública é uma ferida aberta que não tem cura e para a qual não sabemos ainda
onde encontrar o remédio.
Contudo, já podemos dar alguns passos. A psicologia das
emergências estuda o comportamento das pessoas nos acidentes e desastres
desde uma ação preventiva até o pós-trauma e subsidia intervenções de
compreensão, apoio e superação do trauma às vítimas e socorristas. Isto não
significa ficar colado no drama, que é o emocionalismo e a paralisia diante
da tristeza. Significa, atualmente, discutir e buscar caminhos, sempre
levando em conta a experiência e o contexto em que aparecem as situações de
crise.
Pode-se presumir a necessidade de estudos nesta área, por
exemplo, pelas estatísticas (Denatran, 2006) de acidentes nas rodovias
federais nos anos de 2004 e 2005: 100 mil acidentes, 66 mil feridos e 6 mil
mortes. É fácil constatar que a sociedade é hábil em criar angústias, mas
não está capacitada para propor alternativas para sair delas.
O desafio diante da crise, principalmente em uma situação
inesperada, significa um momento de sofrimento, mas também pode representar
uma oportunidade de crescimento, contribuindo para a formação de novas
posturas em relação à vida. Quem sabe, então, podemos desenvolver outras
percepções e ações, ampliando as discussões e a pesquisa na psicologia das
emergências? Será que precisamos continuar respondendo a essas questões como
tem sido feito até agora, onde a assistência é igual à exclusão? (Zero Hora , RS - 11/06/2007). (Autor: NEY ROBERTO V. BRUCK/ Doutor em Psicologia )