Trânsito
Alta velocidade
A questão de fiscalização de velocidade no Brasil anda tão confusa que
assume ares de descontrole total. É mais do que evidente que alguma coisa
precisa ser feita, pois o simples ato de dirigir está se tornando um
verdadeiro inferno no que diz respeito a limites de velocidade, equipamentos
de medição e sinalização. Pior que tudo, autuações completamente infundadas
estão afetando o bolso e tirando o humor dos motoristas e, por extensão, da
população.
Várias resoluções do Conselho Nacional de Trânsito sobre o assunto mostram
que a confusão é grande. Além disso, o que se tem gasto com placas de aviso
de fiscalização eletrônica é uma quantia nada desprezível e, pior, com
dinheiro público, o nosso. Ainda por cima, as placas poluem visualmente,
portanto na contramão da tendência atual.
Todos hão de concordar que a velocidade é um aspecto importante na
mobilidade e precisa ter algum tipo de controle, mas o que está acontecendo
no Brasil (e também em muitos países) beira o irracional. É como se as
autoridades de trânsito tivessem declarado guerra aos motoristas, no que diz
respeito a velocidade, em vez de declarar guerra aos que realmente conduzem
mal seus veículos e põem em risco a vida de terceiros por esse motivo. É
mais do que evidente que essa guerra tem fins escusos, qual seja, reforçar o
caixa de prefeituras (sobretudo) e estados.
Tanto é guerra que a indústria eletrônica vem produzindo, há décadas,
equipamentos que detectam a presença de radares ou outros detectores de
velocidade e, por outro lado, aparelhos de contramedida, que apontam
veículos com tais equipamentos. As autoridades de trânsito, preocupadas com
a revelação de seu armamento, chegaram ao cúmulo de proibir o uso de
equipamento anti-radar.
Uma das saídas é a localização dos radares por meio de GPS (sistema de
posicionamento global por satélite). Há cerca de cinco anos uma empresa
gaúcha, a Microhard S.A., desenvolveu e comercializou o Skytrax, um sistema
baseado em GPS que custava R$ 700 e funcionava razoavelmente bem. Uma vez
informado pela atualização do fabricante, o equipamento sabia que em um
determinado ponto havia um controle e emitia sinais sonoros e luminosos para
o motorista. A produção e a venda do produto foram encerradas há dois anos,
mas a empresa pensa em relançar o produto. Que não é proibido pelo CTB e nem
pode, já que não é dedicado à detecção de radar. Apenas localiza-o, como
localiza uma lombada, uma curva perigosa. Isso prova que, como em toda
guerra, existe tecnologia à disposição dos dois lados.
Independentemente de se detectar ou não radares e afins, urge que se faça um
reestudo dos limites de velocidade, em conjunto a uma nova regulamentação de
controle que vise sobretudo a restabelecer a paz no trânsito, pondo um fim à
insensatez atual. O primeiro passo é introduzir o conceito de velocidade
recomendada em nossas auto-estradas, como na Alemanha. Lá esta velocidade é
de 130 km/h, mas se pode trafegar livremente acima disso quando as condições
permitem. No caso de ser provada culpa por um acidente acima de 130 km/h,
porém, as penas para o motorista são bastante severas e em geral não há
cobertura de seguro.
Isso por si só é capaz de impor um comportamento do motorista caracterizado
por responsabilidade e respeito. Nas demais estradas, adotar limites realistas, não a hipocrisia que estamos fartos de ver. As de pista simples e mão dupla passariam de 80 km/h, a maioria hoje, para 100 km/h, algumas 110 km/h. As vicinais, 90 km/h. Nas
vias urbanas, que requerem velocidades menores em função da maior presença
de pedestres por perto e das paradas obrigatórias e em semáforos, um
critério misto, velocidade recomendada e velocidade-limite. Tal como é feito
hoje, haveria registro fotográfico, mas diferenciado: tanto dos que
excedessem a velocidade recomendada quanto para os que ultrapassassem o
limite, dentro da regra atual.
Por exemplo, uma via expressa que hoje é de 90 km/h passaria a 100 km/h
recomendada e 120 km/h, limite. Os que fossem flagrados acima da velocidade
recomendada, mas abaixo daquela limite, seriam notificados a título de
lembrete, de alto valor educativo.
Com o novo sistema acabaria como que por um passe de mágica o estresse pelo
qual motoristas brasileiros vêm passando e, como resultado, o trânsito
tenderia a ser mais seguro. Não haveria a catástrofe que os inimigos da
velocidade poderão vaticinar (e certamente o fariam). Claro, vai acabar a
boquinha de municípios e estados, que têm nas autuações por excesso de
velocidade uma bela fonte de arrecadação, em especial os primeiros, desde
que o trânsito foi municipalizado pelo código de trânsito em vigor, há 10
anos.
Por sua vez, o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) não poderá se
furtar ao dever de chamar à responsabilidade autoridades de trânsito
municipais e estaduais, pela prática de velocidades fora da realidade por
serem baixas demais. Não poderá fica livre de uma ação, por exemplo, o
Departamento de Estradas de Rodagem do Estado de São Paulo, que pelo órgão
regulamentador Agência Reguladora de Transporte do Estado de São Paulo
(Artesp) permite o abuso de limitar em 80 km/h o trecho de descida de serra
da SP-160 Rodovia dos Imigrantes, típica de Primeiro Mundo e projetada para
110 km/h.
Utopia? Pode até ser. Como era utópico nos primeiros anos da década passada
o Brasil vir a ter algum dia uma moeda forte e respeitada, aceita até nas
lojas isentas de tributação de nossos aeroportos (nunca foi). O real está a
dias de completar 13 anos e nunca coloquei uma nota de R$ 100 na carteira.
Não precisa. O tema velocidade requer mesmo o uso de muito bom senso. Não é
utopia. (Best Cars Web Site - 11/06/2007)